O CONCELHO DE VALHELHAS

Santa Maria de Valhelhas tem um passado histórico de enorme importância que bem justifica a honra que lhe é devotada pelos seus habitantes. Foi um dos grandes Concelhos portugueses entre os séculos XII e XIV, um dos Concelhos perfeitos do primeiro período da Nacionalidade. Possuía um termo vastíssimo, do qual vieram a ser herdeiros, em meados do século XIX, os actuais Concelhos da Guarda (quatro Freguesias), Covilhã (outras quatro) e Manteigas (uma Freguesia). No século XVIII o Concelho de Valhelhas tinha Juíz Ordinário, Vereadores, Procuradores de Concelho, Escrivães da Câmara, Escrivães do Judicial e Notas, Juiz dos Órfãos e seu Escrivão, Alcaide e Ordenanças. Resistiu durante sete séculos a todas as reformas administrativas operadas no país. Foi extinto em 1855, passando Valhelhas a pertencer desde então ao Concelho da Guarda. Vale de Amoreira ficou anexada civilmente à Freguesia de Valhelhas, desde essa data, sendo desanexada oficialmente em 23 de Maio de 1988 (Lei n.º 58/88). Do grande Concelho que foi, pouco resta actualmente em Valhelhas. Mas o facto de o turismo fazer actualmente parte integrante e crucial da economia desta terra prova as suas potencialidades do presente, que poderão no futuro vir a fazer jus a um passado de tão elevada estatura.

RESENHA HISTÓRICA

O passsado assume em Valhelhas contornos de enorme importância. O seu povoamento começou bem cedo, ainda antes da chegada dos romanos a Portugal. Os restos da fortaleza militar, classificados como sendo um castro lusitano, indicam como primeiros povoadores os homens neolíticos, uma vez que os castros lusitanos são da época neolítica. Por conseguinte, a avaliar também por outros vestígios subsistentes (os castrejos de Barrelas, Gonçalo, Castelo Deladeiro, o monumento megalítico do Prado, a via militar romana, etc.), a fundação de Valhelhas deve ser coeva dos primeiros povoamentos serranos de centenas de anos anteriores à nossa era. Toda a toponímia confirma a antiguidade da vida humana em Valhelhas: Castelo dos Mouros de Cima, na delimitação desta Freguesia com a de Gonçalo, remete-nos para um passado mourisco; Valhelhas, o topónimo principal, é a aplicação de um étimo latino ainda usado durante e após o período de formação da nossa língua. Nas redondezas, outros nomes apontam para um remoto povoamento: Sendão, no limite com a Freguesia de Famalicão, terá sido uma "villa" de um possessor germânico de nome Senda (ou Cendão); Sarnadas, em Verdelhos, significava a inclinação dos terrenos, sendo um adjectivo ainda abundantemente utilizado no século XI.

O FORAL DE VALHELHAS

Após as cruentas lutas entre Portugueses e Muçulmanos e por Valhelhas também ter sofrido os seus efeitos devastadores, foram concedidos grandes privilégios aos respectivos habitantes, consignados em cartas régias (forais), numa tentativa de incentivar a sua fixação e atrair novos povoadores. Apesar de dizimado pelas lutas com os Sarracenos, o agregado populacional de Valhelhas devia ser considerável, visto que lhe foi dada a categoria de Vila (povoação que se rege a si mesma, com direitos e deveres próprios entre os seus moradores e para com os senhorios da terra). Essas populações eram essencialmente constituídas pelas categorias dos vilãos-herdadores: peões, cavaleiros, servos ou malados. Aos cavaleiros-vilãos de Valhelhas foi dado o privilégio de infanções, em julgamento e juramento; ao mesmo tempo, os peões eram equiparados a cavaleiros-vilãos. O primeiro foral de Valhelhas foi concedido por D. Sancho I a D. Gomes Ramires, Mestre da Ordem do Templo e aos seus frades, que daqui fizeram uma comenda e uma casa, onde alguns residiam. A data de atribuição nunca foi muito consensual, sendo maioritária a opinião dos historiadores que apontavam o ano de 1188. Todavia, no seguimento de informação a este respeito facultada recentemente pelo Arquivo Nacional da Torre do Tombo, a pedido da Junta de Freguesia de Valhelhas, foi indicado o ano de 1181, com base na transcrição da data da era de César, constante no foral, para a era de Cristo. Quando a Ordem do Templo foi abolida pelo Papa Clemente V, em 1311, passou a comenda de Valhelhas para a coroa, até 1319, data em que transitou para a Ordem de Cristo. O Rei, como Grão-mestre desta Ordem e da de S. Tiago, apresentava o prior pela mesa de consciência e ordens. O foral de D. Sancho I foi confirmado por D. Afonso II, em Santarém, e renovado por D. Manuel I em 20 de Maio de 1511.

A ORIGEM DO NOME

Vallécula, Vallícula, Valélias, Vallelhas, Valhelhas - É por este vocábulo, Valélias, do latim bárbaro usado na redacção dos antigos documentos até ao reinado de D. Afonso III, apesar de já formada a nossa língua, a portuguesa, que aparece mencionada no foral e noutros documentos oficiais da época e que se transformou, segundo Pinho Leal, do seguinte modo: Vallelhas - a primeira parte daria "Valle" e a segunda daria "lhas", na língua castelhana e que significava no português antigo, "pequenos vales", no plural. Embora este conceito não seja partilhado por muitos historiadores, o seu significado está de acordo com a realidade porque a povoação tem seis vales, a saber, principiando pelo mais importante: o do Zêzere; o da Ribeira de Famalicão; o do Ribeiro de S. Miguel; o de Vale Bom; o de Escarção; o de Vale de Amoreira. Sobre a etimologia de Valhelhas, dela se ocupou também a Grande Enciclopédia Luso Brasileira, no tomo 34.º, página 21.