Valhelhas, qual pérola dum grande diadema formado por majestosas montanhas e fechado por uma ponte filipina de quatro grandes arcos, está situada num dos recantos mais aprazíveis da Serra da Estrela. Coroando um outeiro, no seu trono de rainha do Zêzere, o seu amplo e risonho vale assiste senhorilmente, neste encantador teatro cujo pano de fundo é constituído por alcantiladas montanhas, ao desenrolar dos quadros mais maravilhosos que a natureza nos pode proporcionar: de Inverno, vendo os flocos de neve espalhados no espaço executar suaves e originais bailados até pousarem no solo, ora matizando, ora cobrindo com denso manto alvíssimo os montes que as cingem; na Primavera, à florescência dos vegetais que revestem as suas encostas do seu encantador rio e ribeiros; à sinfonia das aves. E durante as noites límpidas de luar, ouvindo dos loureiros e salgueirais o canto amoroso dos rouxinóis. Em dias bucólicos, ao contemplarmos do cimo do outeiro a maravilhosa paisagem, a Natureza silenciosa fala-nos da longínqua época de Viriato e parece-nos distinguir as vistosas legiões romanas e o tropel da sua cavalaria, preparando-se para darem luta aos valentes e invencíveis lusitanos.
Tapetando harmoniosamente uma colina que se levanta entre dois deleitosos vales, com o seu casario envolvido por oliveiras e loureiros, vê correrem-lhe ao pés, como que a pretenderem beijar-lhos, a ribeira caudalosa de Famalicão e o impetuoso rio Zêzere, uma a Norte e o outro a Sul. À docilidade destas correntes, no Estio, sucede a bravura durante o Inverno em que, por vezes, as suas águas, avolumando-se, cobrem competamente os terrenos marginais e furiosas atiram-se com toda a brutalidade contra a aldeia, pretendendo cortá-la pelo meio. Mas esta, sem receio, pois confia nos seus indestrutíveis alicerces, assiste à sua passagem tumultuosa e ondulante, ficando a vê-las seguir espumando de raiva, pelo caminho que o destino lhes traçou. O rio Zêzere, que nasce nos Cântaros, no maciço central da Serra da Estrela, foi conhecido entre os romanos por Ozecharus ou Ozecarus, cujo nome terá derivado de zenzereiro ou sinceiro, árvore que nasce espontaneamente nas suas margens, cujo porte não vai além dos quatro metros. O zenzereiro é característico das margens deste rio e tem forma redonda e copada. Esta planta é actualmente denominada salgueiro. O rio Zêzere é o principal curso de água de Valhelhas e um imprescindível meio para manter as culturas agrícolas marginais, através da rega distribuída por levadas que conduzem as águas desde os açudes que estratégicamente são feitos em diversos pontos do rio. É também um ponto fulcral para abastecimento de água a helicópteros de combate a incêndios, através da bacia hídrica que é criada durante o Verão, durante o funcionamento da praia fluvial. O parque de merendas, o parque de campismo e a praia fluvial, situados na margem esquerda do rio, são bastante procurados por turistas nacionais e estrangeiros e devem a sua beleza e popularidade à existência das cristalinas águas do Zêzere. Também a já referida ribeira de Famalicão e o ribeiro de S. Miguel são cursos de água importantes. As suas correntes, com maior ou menor intensidade, vão bailando satisfeitas através dos seus leitos, fertilizando e embelezando os campos marginais. Todo o cenário envolvente se desenha através de um longo manto verde e outras matizes, com muitas hortas e árvores de fruto.
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